Um adolescente de apenas 17 anos, sem experiência na cozinha e com apenas US$ 1.000 emprestados, deu início ao que se transformaria em uma das maiores redes de fast food do planeta. A trajetória de Fred DeLuca, fundador da Subway, mistura empreendedorismo, expansão acelerada, decisões ousadas e uma sequência de crises que, décadas depois, colocariam a empresa diante de um dos momentos mais desafiadores de sua história.
Avaliada em cerca de US$ 9,6 bilhões na venda realizada em 2023 para o grupo Roark Capital, a Subway chegou a ultrapassar o McDonald’s em número de restaurantes no mundo, mas também enfrentou problemas envolvendo sua reputação, conflitos com franqueados e mudanças profundas no comportamento dos consumidores.
A história mostra como um negócio criado para pagar uma faculdade de medicina acabou se tornando um gigante global presente em dezenas de países.
Um churrasco, um conselho inesperado e um empréstimo que mudou tudo
Fred DeLuca nasceu em 1947, no Brooklyn, em Nova York. Filho de um operário imigrante italiano, cresceu em uma família de renda modesta e tinha um objetivo bastante claro: juntar dinheiro suficiente para estudar medicina.
Segundo relatos sobre sua trajetória empresarial, a mudança de rumo aconteceu durante um churrasco na casa de Peter Buck, físico nuclear e amigo da família.
Ao ouvir que o jovem precisava encontrar uma forma de pagar a universidade, Buck fez uma sugestão simples:
“Por que você não abre uma lanchonete de sanduíches?”
A ideia veio acompanhada de um empréstimo de US$ 1.000, valor que deu origem ao primeiro negócio da dupla.
Em agosto de 1965 nasceu a Pete’s Super Submarines, em Bridgeport, no estado de Connecticut. O nome homenageava o investidor, mas o início esteve longe de ser um sucesso.
Embora o primeiro dia tenha registrado cerca de 300 sanduíches vendidos, o movimento caiu rapidamente nas semanas seguintes. Ao término do primeiro verão, havia apenas alguns dólares em caixa, insuficientes para considerar o negócio financeiramente saudável.
Abrir outra loja parecia loucura, mas virou estratégia
Quando muitos empresários optariam por reduzir despesas, Fred DeLuca e Peter Buck decidiram seguir exatamente na direção oposta.
Eles abriram uma segunda unidade.
A lógica era simples: quanto maior a presença da marca, maior seria a percepção de que aquele restaurante fazia sucesso. Era uma estratégia de marketing baseada na confiança do consumidor.
Poucos anos depois, em 1968, a empresa adotou oficialmente o nome Subway, mais curto e fácil de memorizar.
A dupla também estabeleceu uma meta considerada extremamente ambiciosa para a época: chegar a 32 lojas em dez anos.
O modelo de franquias acelerou a expansão
À medida que novas unidades eram inauguradas, surgiu outro desafio: administrar todas elas.
Foi então que Fred DeLuca adotou um modelo que transformaria completamente o crescimento da empresa: o sistema de franquias.
Em vez de abrir apenas lojas próprias, empreendedores passaram a investir na marca mediante pagamento de taxa inicial e royalties.
A estratégia permitiu uma expansão muito mais rápida.
Diferentemente de outras grandes redes de fast food, como McDonald’s e Burger King, o Subway exigia uma estrutura operacional relativamente simples, dispensando cozinhas industriais complexas e reduzindo significativamente o investimento inicial.
Isso abriu espaço para que restaurantes fossem instalados em locais bastante variados, incluindo aeroportos, hospitais, postos de combustíveis, universidades, bases militares e até embarcações turísticas.
Ao longo dos anos, a empresa expandiu sua presença para mais de 100 países.
Segundo dados divulgados pela própria Subway, a rede chegou a operar mais de 37 mil restaurantes, tornando-se uma das maiores franquias alimentícias do planeta.
O império ultrapassou o McDonald’s em número de restaurantes
Em 2011, a Subway alcançou um marco histórico.
Naquele momento, a empresa ultrapassou o McDonald’s em quantidade de unidades espalhadas pelo mundo.
O feito chamou atenção porque aconteceu sem que a empresa adotasse o mesmo modelo de operação das gigantes tradicionais do setor.
Enquanto diversas concorrentes dependiam fortemente de restaurantes próprios, o Subway consolidava sua expansão por meio das franquias.
Especialistas do setor apontam que esse formato reduzia custos para a companhia e acelerava significativamente sua presença internacional.
Nem tudo eram vitórias dentro da rede
O crescimento acelerado trouxe problemas igualmente grandes.
Diversos franqueados passaram a criticar a estratégia da empresa de abrir novas unidades muito próximas umas das outras.
Na prática, isso fazia com que restaurantes da própria marca disputassem os mesmos clientes, reduzindo a rentabilidade individual de cada loja.
Também surgiram questionamentos sobre contratos considerados complexos e cláusulas que davam ampla autonomia à matriz para aprovar novas franquias, mesmo quando isso afetava estabelecimentos já existentes.
Esses conflitos passaram a fazer parte das discussões envolvendo o modelo de negócios da empresa durante os anos seguintes.
Crises atingiram a reputação construída durante décadas
Além dos desafios internos, a Subway enfrentou sucessivas crises públicas.
Uma das mais conhecidas envolveu Jared Fogel.
O ex-estudante universitário ganhou notoriedade após afirmar que perdeu grande quantidade de peso consumindo sanduíches da rede. A história virou uma das campanhas publicitárias mais famosas da empresa.
Segundo registros públicos, a estratégia impulsionou significativamente as vendas.
Entretanto, em 2015, Jared Fogel foi condenado nos Estados Unidos por crimes relacionados à exploração sexual infantil, provocando uma das maiores crises institucionais da história da marca.
A empresa encerrou imediatamente qualquer vínculo com o ex-garoto-propaganda.
Quando a Justiça decidiu que o pão não era pão
Outra polêmica ganhou repercussão internacional em 2020.
A Suprema Corte da Irlanda decidiu que os pães vendidos pela Subway continham açúcar em quantidade superior ao limite permitido para receber benefícios fiscais destinados aos alimentos básicos.
Na prática, para fins tributários da legislação irlandesa, o produto não poderia ser enquadrado como pão tradicional.
A decisão repercutiu mundialmente, embora se referisse exclusivamente às regras fiscais daquele país e não significasse uma proibição da venda dos produtos.
Ingredientes também entraram na mira
Ao longo dos anos, a empresa enfrentou outros questionamentos envolvendo seus alimentos.
Investigações jornalísticas, ações judiciais e processos levantaram dúvidas sobre a composição do atum utilizado em alguns mercados, sobre ingredientes presentes em produtos de frango e também sobre aditivos empregados na fabricação dos pães.
Outra controvérsia envolveu o famoso sanduíche Footlong, anunciado como tendo cerca de 30 centímetros.
Consumidores alegaram que algumas unidades apresentavam medidas inferiores às divulgadas, o que levou a disputas judiciais e acordos em determinados mercados.
A morte do fundador marcou o fim de uma era
Fred DeLuca faleceu em 2015, aos 67 anos, após lutar contra uma leucemia.
Segundo estimativas publicadas por veículos especializados em negócios, ele deixou uma fortuna bilionária construída ao longo de cinco décadas.
Sua morte coincidiu com um período de mudanças profundas no setor de alimentação.
O avanço dos aplicativos de entrega, o crescimento das hamburguerias premium, a busca por alimentos considerados mais naturais e a concorrência de novos modelos de restaurante passaram a pressionar os resultados da rede.
Nos Estados Unidos, diversas lojas encerraram atividades nos anos seguintes.
Venda bilionária buscou reposicionar a empresa
Em 2023, a Subway foi adquirida pelo grupo de investimentos Roark Capital por aproximadamente US$ 9,6 bilhões.
A operação marcou uma nova fase para a companhia.
A expectativa dos novos controladores passou a ser acelerar investimentos, modernizar restaurantes, fortalecer canais digitais e reposicionar a marca diante das mudanças no comportamento do consumidor.
Mesmo enfrentando retração em alguns mercados, a Subway continua figurando entre as maiores redes de alimentação rápida do mundo, mantendo presença em milhares de cidades e movimentando bilhões de dólares anualmente.
O que explica um sucesso tão duradouro?
Especialistas em franquias costumam apontar que o principal diferencial da Subway sempre foi o baixo custo operacional quando comparado a outras grandes redes do setor.
A combinação entre investimento inicial relativamente menor, operação simplificada e forte reconhecimento da marca permitiu uma expansão extremamente rápida ao longo das últimas décadas.
Por outro lado, analistas também observam que esse mesmo modelo facilitou uma expansão considerada excessiva em determinados mercados, contribuindo para a concorrência entre unidades da própria rede e reduzindo a rentabilidade de parte dos franqueados.
Vídeo detalha bastidores da ascensão e das crises
Em vídeo publicado no Youtube, é explicado como um empréstimo de apenas US$ 1.000 deu origem a um dos maiores impérios do fast food mundial. Ele também explica os bastidores da estratégia de franquias, os conflitos com franqueados, as principais crises de reputação enfrentadas pela Subway e os desafios que a companhia tenta superar para continuar relevante em um mercado cada vez mais competitivo.
