Inclusão sem endereço fixo: CadÚnico vira porta nacional de acesso a direitos para pessoas em situação de rua, dispensa comprovante de residência, permite cadastro em qualquer município e fortalece a rede de proteção social que acompanha um público marcado pela mobilidade urbana e extrema vulnerabilidade

O Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico) passou a ser reconhecido, em todo o território nacional, como uma das principais portas de entrada para a garantia de direitos das pessoas em situação de rua. A mudança representa um avanço na política de assistência social e responde a um desafio histórico do país: a dificuldade de incluir, acompanhar e proteger um público altamente vulnerável e marcado pela mobilidade entre cidades.

Um dos pontos centrais é que, ao contrário do senso comum, pessoas em situação de rua não precisam comprovar endereço fixo ou apresentar comprovante de residência para serem incluídas no CadÚnico. O cadastramento pode ser feito em qualquer município, inclusive durante abordagens sociais nas ruas, o que amplia o alcance da política pública e evita que essa população seja excluída por barreiras burocráticas.

A medida atende um cenário recorrente: a intensa mobilidade urbana e intermunicipal entre pessoas que buscam oportunidades, atendimento em saúde, segurança, redes comunitárias ou abrigo. Sem acompanhamento contínuo, essas trajetórias dificultam a chegada do Estado e limitam o acesso a benefícios essenciais. Com a flexibilização, o CadÚnico torna-se um instrumento de inclusão e também de planejamento para gestores municipais, estaduais e federais.

O que é o CadÚnico e por que ele é fundamental

O CadÚnico é a principal base de dados do governo federal para identificar famílias em situação de pobreza e extrema pobreza. É por meio dele que são operacionalizados programas como:

  • Bolsa Família

  • Benefício de Prestação Continuada (BPC)

  • Tarifa Social de Energia Elétrica

  • Programa Dignidade Menstrual

  • e outros benefícios de transferência de renda e serviços socioassistenciais

Para pessoas em situação de rua, o cadastro assume um papel estratégico: além de permitir acesso à renda e a serviços, gera informações para o Estado, que passa a dimensionar demandas, entender perfis e organizar políticas públicas adequadas a cada território.

Segundo as normas vigentes, considera-se família em situação de rua aquela que, vivendo em extrema pobreza, utiliza logradouros públicos ou áreas degradadas como espaço de moradia e sustento, de forma temporária ou permanente, ou que utiliza unidades de acolhimento para pernoite ou estadia provisória.

Direitos garantidos à população em situação de rua

A Constituição Federal e a Política Nacional para a População em Situação de Rua asseguram um conjunto amplo de direitos, que incluem:

  • vida e integridade física

  • alimentação e saúde

  • moradia e proteção social

  • educação e trabalho

  • lazer e dignidade humana

Nesse contexto, a assistência social organizada pela Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS) atua integrada a demais políticas públicas para reduzir desigualdades e enfrentar a pobreza.

O CadÚnico, portanto, não é apenas um cadastro administrativo: ele funciona como instrumento de cidadania e inclusão social, possibilitando que essa população acesse serviços que, historicamente, lhe eram negados.

Como funciona o cadastramento de pessoas em situação de rua

O cadastramento pode ser realizado de formas diferentes, de acordo com a organização do município. Entre as principais, estão:

  • atendimento em postos fixos de cadastramento

  • atendimento em locais específicos para esse público

  • ações itinerantes e abordagens sociais nas ruas

A recomendação é que o processo seja conduzido em parceria com a Proteção Social Especial, envolvendo:

  • equipes de abordagem social

  • Centros POP

  • CREAS

  • CRAS

Isso porque o cadastro deve ser parte de um atendimento mais amplo, com escuta qualificada, encaminhamentos e acompanhamento, e não uma ação isolada.

Quando possível, o cadastro pode ser realizado no momento da abordagem, próximo ao local onde a pessoa vive, facilitando o acesso e reduzindo barreiras burocráticas.

Quais formulários são obrigatórios

Para inclusão no CadÚnico, são exigidos ao menos três formulários específicos:

  1. Formulário Principal

    • obrigatório para todas as famílias

    • deve indicar preenchimento do Formulário Suplementar 2

    • o bloco sobre características do domicílio não deve ser preenchido para esse público

  2. Formulário Suplementar 1

    • obrigatório

    • identifica vinculação a programas governamentais e pertencimento ao Grupo Populacional Tradicional e Específico (GPTE)

  3. Formulário Suplementar 2

    • obrigatório para cada pessoa em situação de rua

    • preenchimento individual, mesmo que haja mais de um integrante na família

Esses instrumentos coletam informações específicas, essenciais para compreender vínculos familiares, demandas sociais e acesso a serviços.

O que não pode ser exigido durante o cadastro

Um avanço importante no atendimento à população em situação de rua é a flexibilização de documentação e comprovantes. Para famílias unipessoais, não é permitido exigir:

  • comprovante ou declaração de endereço

  • assinatura de Termo de Responsabilidade de Família Unipessoal

  • upload de documentos de identificação ou endereço no sistema

Quando houver necessidade de registrar um endereço, deve ser informado o da unidade socioassistencial utilizada pela pessoa, como:

Na ausência desses serviços, pode ser registrado o endereço de uma instituição de acolhimento indicada pela própria pessoa.

Como a sociedade pode ajudar

Qualquer cidadão pode contribuir para ampliar o acesso ao CadÚnico e fortalecer a rede de proteção social. Entre as formas de colaboração estão:

  • orientar sobre a possibilidade de cadastro sem endereço

  • indicar o CRAS, CREAS, Centro POP ou posto de cadastramento mais próximo

  • acionar equipes de abordagem social em situações de vulnerabilidade

  • apoiar organizações comunitárias, religiosas e civis que atuam com essa população

Profissionais de saúde, educação, assistência social, voluntários e lideranças comunitárias também desempenham papel essencial ao identificar necessidades e encaminhar para a rede de serviços.

A cada contato entre equipes socioassistenciais e pessoas em situação de rua — seja por demanda espontânea, busca ativa ou abordagem — a atualização do CadÚnico cumpre dupla função: garante direitos e fornece inteligência social para o Estado.

Saulo Moreira

Saulo Moreira

Saulo Moreira dos Santos é um profissional graduado em Ciências Contábeis pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Possui mais de 15 anos de experiência como redator e criador de conteúdo para portais de notícias.Saulo se especializou na produção de artigos sobre temas de grande interesse social, no âmbito da economia, benefícios sociais e direitos trabalhistas.