O que aconteceu no Bolsa Família? Corte de 2,1 milhões de beneficiários, fila bate quase 1 milhão e pente-fino deixa brasileiros assustados

O Bolsa Família encerra 2025 com mudanças expressivas no número de beneficiários, no orçamento e na forma de gestão do programa. A saber, o governo federal confirmou que 18,7 milhões de famílias recebem o benefício em dezembro, número menor que o registrado no ano anterior. Ao mesmo tempo, o valor médio pago continua em crescimento, reforçando o impacto fiscal da política social.

Antes de mais nada, vale destacar que o benefício médio nacional chegou a R$ 691,37, enquanto o desembolso total previsto para o pagamento de dezembro alcança R$ 12,7 bilhões. Os depósitos começaram em 10 de dezembro e seguem até o dia 23, em calendário antecipado devido ao Natal. Ou seja, todos os repasses foram planejados para ocorrer antes do feriado.

A princípio, o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) apresenta esse cenário como parte do balanço do terceiro ano de gestão, marcado por revisões cadastrais, modernização do Cadastro Único e restrições orçamentárias mais intensas ao longo do ano.

Queda no número de beneficiários do Bolsa Família após período de forte expansão

Em primeiro lugar, a comparação direta entre 2024 e 2025 revela uma redução significativa na base de atendidos. Em dezembro de 2024, o Bolsa Família contemplava 20,8 milhões de famílias. Já em dezembro de 2025, esse total caiu para 18,7 milhões, o que representa recuo de 11,2%.

Esse movimento contrasta com o período 2020–2022, sobretudo durante a gestão Jair Bolsonaro, quando o número de beneficiários cresceu de forma acelerada em anos eleitorais. Com isso, a diminuição registrada agora ocorre após uma fase incomum de expansão contínua.

Segundo o governo, a saída de 2,1 milhões de famílias ao longo do ano está diretamente relacionada a revisões cadastrais, ao aumento da integração de dados e à identificação de famílias cuja renda ultrapassou os limites do programa.

Além disso, o Executivo afirma que o reforço das ações de controle — com cruzamentos frequentes de informações e auditorias — contribuiu para o desligamento de grupos que, segundo a análise técnica, não se enquadrariam mais nas regras.

Por outro lado, reportagens e registros da rede de assistência social apontam que parte das exclusões está ligada a processos de averiguação, que envolvem bloqueios e suspensões temporárias. Nessas situações, as famílias precisam apresentar documentos adicionais para permanecer no Bolsa Família.

Ou seja: a falta de detalhamento público sobre os tipos de desligamento impede avaliar com precisão o peso de cada motivo.

Cadastro Único reformulado transforma a gestão do programa em 2025

A reformulação do Cadastro Único, implementada em março de 2025, marca uma mudança estrutural no controle do Bolsa Família. Em conclusão, essa atualização ampliou a base de dados integrada, reforçando a segurança das informações e a capacidade de fiscalização.

Com o novo sistema, o governo passou a realizar cruzamentos de dados com mais frequência, identificando inconsistências, variações de renda e possíveis duplicidades de forma mais rápida. Técnicos da área social afirmam que esse avanço melhora a gestão, mas também aumenta o número de cadastros enviados para revisão ou averiguação.

A intensificação das análises ocorreu principalmente no segundo semestre, período em que o orçamento ficou mais restrito e a necessidade de controle foi maior. Com isso, enquanto a entrada de novas famílias diminuiu, o volume de revisões cresceu e passou a impactar os dados oficiais mês a mês.

Ao mesmo tempo, municípios com equipes reduzidas enfrentaram dificuldades para manter o ritmo de atualizações cadastrais, o que gerou atrasos em correções de informações e na liberação de benefícios bloqueados temporariamente.

Valor médio do Bolsa Família cresce e mantém gastos elevados

Mesmo com a redução na quantidade de beneficiários, o valor médio do benefício segue em tendência de alta. Em dezembro de 2018, o valor médio era de R$ 186,78. Em 2022, subiu para R$ 607,14. Já em 2025, chegou ao patamar de R$ 691,37.

Essa elevação está ligada à estrutura atual do programa, que inclui:

  • valor mínimo por família,

  • adicional para crianças e adolescentes,

  • adicional para gestantes,

  • complemento para famílias com crianças de até 6 anos,

  • benefícios específicos conforme a composição do grupo familiar.

Como consequência, mesmo com menos pessoas atendidas, o gasto total permanece alto. Na prática, o desembolso mensal do governo variou bastante nos últimos anos:

  • janeiro de 2022: cerca de R$ 3,7 bilhões;

  • junho de 2023: pico de aproximadamente R$ 15 bilhões;

  • dezembro de 2025: previsão de R$ 12,7 bilhões.

Ou seja, o orçamento para o Bolsa Família continua sendo um dos maiores componentes das despesas sociais obrigatórias.

Fila do Bolsa Família volta a crescer e atinge maior patamar desde 2022

Por fim, enquanto a base de beneficiários diminuiu, a fila de ingresso voltou a crescer ao longo de 2025. Em novembro, havia 987,6 mil famílias pré-habilitadas aguardando liberação do benefício — o maior número desde julho de 2022, quando a fila atingiu 1,6 milhão.

Historicamente, a fila já ultrapassou a marca de 1 milhão diversas vezes, inclusive durante o período de maior expansão. Em dezembro de 2021, por exemplo, chegou a 2,8 milhões de famílias.

O dado de 2025, porém, chama atenção porque surge em paralelo à redução na quantidade total de beneficiários. Ou seja, mesmo com mais desligamentos, a fila voltou a crescer, refletindo demanda reprimida em várias regiões do país.

Até agora, não há um balanço público que explique detalhadamente por que a fila aumentou. Não há informações claras sobre:

  • tempo médio de análise dos cadastros,

  • quantas famílias esperam por falta de orçamento,

  • quantas pendências são documentais,

  • quantas dependem de atualização pelos municípios.

Essa falta de transparência dificulta a compreensão exata do fenômeno.

Transparência, fiscalização e desafios para 2026

O governo reforça que as revisões cadastrais são essenciais para garantir que o Bolsa Família chegue a quem realmente precisa, e que o combate a irregularidades protege o orçamento. Entretanto, especialistas destacam que a ausência de dados detalhados sobre cada tipo de desligamento torna difícil para a sociedade entender o impacto real da fiscalização.

A saber: sem informações sobre quanto tempo leva para resolver revisões, quanto representa cada motivo de exclusão ou quantos municípios têm dificuldade operacional, o debate público permanece baseado apenas em números gerais.

Com orçamento pressionado, fiscalização reforçada e fila crescente, o grande desafio para 2026 será equilibrar o controle rigoroso com a necessidade de garantir acesso rápido ao benefício para famílias elegíveis — sobretudo em áreas com maior vulnerabilidade social.

Saulo Moreira

Saulo Moreira

Saulo Moreira dos Santos é um profissional comprometido com a comunicação e a disseminação de informações relevantes. Formado em Ciências Contábeis pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Com mais de 15 anos de experiência como redator web, Saulo se especializou na produção de artigos e notícias sobre temas de grande interesse social, incluindo concursos públicos, benefícios sociais, direitos trabalhistas e futebol.