Por anos, um esquema complexo operou nas sombras, retirando pequenas quantias de milhões de benefícios previdenciários todos os meses. A maioria dos atingidos sequer percebia os valores que sumiam de seus contracheques. Eram descontos aparentemente inofensivos — R$ 30, R$ 40, R$ 50 — mas que, somados, se transformaram em bilhões de reais desviados.
Agora, o governo federal confirma que o INSS já devolveu R$ 2,3 bilhões aos aposentados e pensionistas vítimas desse golpe, considerado uma das maiores fraudes previdenciárias da história recente do país.
O balanço das devoluções
Segundo dados oficiais do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), mais de 3,3 milhões de pagamentos já foram realizados em ressarcimentos. O montante, corrigido pela inflação, representa um marco no processo de devolução iniciado após a Operação Sem Desconto, deflagrada pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União (CGU) em abril de 2025.
Com o encerramento dessa fase, o governo inicia uma nova etapa do acordo, permitindo que mais de 500 mil beneficiários, que já haviam contestado descontos e aguardavam análise, possam finalmente aderir ao ressarcimento.
Em nota, o INSS informou ainda que seis novas entidades foram identificadas por falsificarem assinaturas digitais em respostas às contestações dos beneficiários. A prática envolvia o uso de softwares para forjar autorizações de desconto.
O que revelou a Operação Sem Desconto
A operação revelou uma rede nacional de corrupção e falsificação. Desde 2019, associações e sindicatos vinham firmando acordos de cooperação técnica com o INSS, permitindo descontos automáticos em benefícios previdenciários, supostamente para cobrir mensalidades associativas.
Na teoria, o sistema era legal. Bastava que o aposentado apresentasse um documento comprovando sua filiação voluntária. Na prática, o mecanismo foi distorcido por entidades de fachada que inseriam nomes e assinaturas falsificadas nos cadastros.
O resultado foi um golpe em escala nacional: milhões de beneficiários tiveram valores descontados sem qualquer autorização.

Como funcionava o esquema bilionário
As investigações apontaram quatro pilares do golpe:
Criação de associações fraudulentas: grupos se registravam como entidades de classe e usavam documentos falsos para obter autorização junto ao INSS.
Acordos com o instituto: com base em normas legais, essas entidades conseguiam permissão para aplicar descontos diretos nos benefícios, supostamente com o consentimento do segurado.
Descontos automáticos e indevidos: os valores eram pequenos — entre R$ 30 e R$ 50 — o que dificultava a percepção das vítimas.
Corrupção interna: agentes públicos e lobistas teriam recebido propina para facilitar os processos de autorização e repasse dos valores.
Os desvios chegaram a R$ 6 bilhões, de acordo com estimativas preliminares da CGU e da Polícia Federal.
A denúncia que expôs o golpe
Tudo começou quando uma aposentada da Bahia percebeu um desconto que não reconhecia em seu contracheque. Após insistir junto ao Ministério Público Federal, sua denúncia levou à abertura de um inquérito que revelaria a dimensão da fraude.
A partir daí, a Polícia Federal deflagrou uma série de operações simultâneas em diferentes estados, apreendendo documentos, computadores e arquivos que comprovavam o envolvimento de laranjas, lobistas e servidores públicos.
Medidas do governo e mudanças nas regras
Com o escândalo exposto, o INSS adotou medidas emergenciais para proteger os beneficiários.
Entre as principais ações estão:
Suspensão dos descontos associativos: desde abril de 2025, nenhuma entidade pode aplicar novos débitos diretamente nos benefícios.
Revisão dos acordos de cooperação técnica: todos os contratos com entidades foram suspensos até que sejam auditados individualmente.
Criação de mecanismos de bloqueio e notificação: o beneficiário agora deve autorizar expressamente, por meio do aplicativo Meu INSS, qualquer novo desconto futuro.
Essas medidas buscam garantir maior transparência e segurança aos aposentados e pensionistas.
A devolução dos valores: quem tem direito
Os ressarcimentos estão sendo realizados de forma administrativa, sem necessidade de ação judicial. O governo optou por essa via para acelerar o processo e reduzir a burocracia.
Têm direito à devolução os beneficiários que:
Sofreram descontos indevidos entre março de 2020 e março de 2025;
Já apresentaram contestação via Meu INSS ou Central 135;
Não tenham recebido restituição anterior sobre os mesmos valores.
O ressarcimento é feito diretamente na conta em que o benefício é depositado. O valor é corrigido pela inflação e pago em parcela única.
Como saber se você foi vítima
Muitos aposentados sequer sabem que passaram por descontos. Para descobrir se houve desconto indevido, é possível seguir estes passos:
Acesse o aplicativo Meu INSS:
Faça login com seu CPF e senha do Gov.br;
No menu, selecione “Extrato de Pagamento”;
Confira se há descontos sob o nome de associações, sindicatos ou entidades desconhecidas.
Ligue para o número 135:
Informe seu CPF e solicite detalhes sobre os descontos aplicados;
Caso identifique valores não reconhecidos, registre uma contestação imediata.
Verifique o portal Gov.br:
O sistema permite consultar se há valores a restituir e acompanhar o cronograma de pagamento.
Entidades sob investigação e punições
Até o momento, 52 processos administrativos de responsabilização foram instaurados contra associações e empresas envolvidas. A CGU e o INSS investigam a participação de servidores públicos que teriam recebido vantagens indevidas para facilitar os descontos.
As entidades poderão ser impedidas de celebrar contratos com o poder público e, em alguns casos, responder criminalmente por formação de quadrilha, estelionato e falsificação de documentos.
CPMI e apuração política
A gravidade do caso levou o Congresso Nacional a instalar uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI)para investigar o esquema. Deputados e senadores avaliam a criação de novos mecanismos de controle digital, incluindo a autenticação biométrica obrigatória em autorizações de desconto.
Parlamentares afirmam que a meta é impedir que golpes semelhantes se repitam e garantir que o sistema previdenciário seja mais seguro e rastreável.
O impacto social do escândalo
A fraude abalou a confiança de milhões de idosos e pensionistas no sistema público. Muitos relataram anos de descontos sucessivos sem sequer saber a origem. Em alguns casos, os prejuízos ultrapassaram R$ 1.000,00 por beneficiário, valor significativo para quem vive com um salário mínimo.
O governo avalia que, com o ressarcimento de R$ 2,3 bilhões e as novas medidas de proteção, o episódio marca uma mudança de postura no INSS, que busca fortalecer a relação de confiança com seus segurados.
