Bolsa Família de R$600 afastou milhões da CLT? Estudo inédito mostra quem realmente deixou de trabalhar e o que aconteceu com o emprego formal

Sempre que o valor do Bolsa Família sobe, a polêmica aparece: será que o benefício faz com que as pessoas desistam de trabalhar de carteira assinada? Desde que o piso do programa foi elevado para R$600 em 2022, essa pergunta não sai dos debates políticos, econômicos e até das rodas de conversa entre amigos.

Mas agora temos um estudo robusto para colocar luz no assunto. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)analisou o impacto real do aumento do benefício na participação da força de trabalho e nos empregos formais. O resultado quebra mitos, confirma algumas suspeitas e abre espaço para novas discussões.

O que o estudo investigou envolvendo o Bolsa Família e mercado de trabalho?

O Ipea usou uma base de dados poderosa: a PNAD Contínua em painel, que acompanha os mesmos domicílios por cinco trimestres consecutivos. Isso permitiu comparar famílias que recebiam o Bolsa Família antes e depois do aumento de valor, além de confrontá-las com famílias semelhantes que não estavam no programa.

A pergunta central era simples: quando o benefício subiu de R$400 para R$600, os beneficiários passaram a sair do mercado de trabalho em massa?

A resposta, segundo o estudo, é clara: houve impacto, mas ele foi pequeno e muito concentrado em grupos já vulneráveis.

O efeito medido pelo Ipea

O estudo detectou uma queda entre 2,2 e 4,7 pontos percentuais na participação da força de trabalho entre os beneficiários impactados pelo aumento. Em termos práticos, significa que parte das pessoas deixou de procurar emprego ou saiu de atividades mal remuneradas logo após o reajuste.

Porém, quando se fala em emprego formal com carteira assinada (a famosa CLT), o impacto foi praticamente nulo. Apenas 3,9% dos que deixaram de trabalhar estavam na CLT, contra 12,6% no total de beneficiários.

Outro ponto importante: o número de horas trabalhadas e a taxa de formalização não sofreram alterações relevantes. Ou seja, quem já estava no mercado formal não largou o emprego por causa do benefício.

Quem saiu do mercado de trabalho?

O perfil de quem deixou a força de trabalho após o aumento mostra que o efeito não se espalhou por todo o programa, mas sim se concentrou nos grupos mais frágeis:

  • Desocupados de longa duração: 28,5% dos que saíram estavam sem emprego há muito tempo.

  • Trabalhadores domésticos sem carteira: 11,4%, número acima da média do grupo.

  • Trabalhadores familiares auxiliares (aqueles que ajudam em atividades informais da família): 6,5%.

Já entre os assalariados com carteira assinada, a saída foi mínima. Em outras palavras, não há sinal de que o Bolsa Família desestimule a CLT.

As mulheres sentiram mais o impacto

O estudo ainda revela diferenças marcantes por gênero e situação familiar:

  • 61% dos que deixaram a força de trabalho eram mulheres, bem acima dos 43% que elas representam no total de beneficiários.

  • Entre as mães com filhos de até 10 anos, o impacto foi ainda maior: 38% delas saíram do mercado, contra 24% no conjunto geral.

  • 34,4% declararam ter parado de trabalhar para cuidar dos filhos ou da casa.

Esse recorte mostra como o benefício acaba funcionando, em muitos casos, como um suporte para mulheres em situação de dupla jornada.

Nordeste e zona rural: onde o efeito foi mais visível

O recorte regional e territorial também trouxe insights importantes:

  • Nordeste: 59% dos que saíram da força de trabalho estavam na região, acima dos 48% do total de beneficiários.

  • Zona rural: 34% contra 25% da média geral.

Esses números indicam que, em regiões onde as oportunidades de trabalho são mais escassas, o benefício acaba pesando mais na decisão de ficar em casa.

Um detalhe importante: o contexto da época

É preciso lembrar que o aumento para R$600 aconteceu em agosto de 2022, ainda durante o Auxílio Brasil, e dentro de um pacote chamado PEC das Bondades.

O objetivo era claro: em ano eleitoral, reforçar o apoio social e garantir um fôlego financeiro para milhões de famílias. Além do Bolsa Família, a medida incluiu o vale-gás e auxílios para caminhoneiros e taxistas.

Ou seja, além do benefício em si, havia um clima político e econômico muito peculiar, que também influenciou o comportamento das famílias.

Mercado de trabalho em 2025: onde estamos agora

Para entender melhor o impacto, vale olhar o cenário atual.

  • Taxa de participação: Em agosto de 2025, estava em 62,3%, ainda abaixo do nível pré-pandemia (2019), mas estável.

  • Desocupação: Bateu mínimas históricas no terceiro trimestre de 2025.

  • Subutilização: Também em queda constante.

Em outras palavras, embora a participação não tenha voltado totalmente ao nível de 2019, o emprego no Brasil vem crescendo de forma consistente desde 2021.

Outros estudos trazem divergências

Nem todos os pesquisadores chegam à mesma conclusão que o Ipea.

  • Daniel Duque (FGV Ibre): estimou uma queda de 11% na participação de quem se tornou elegível em 2023. Ele também apontou reduções de 12% na ocupação e 13% no emprego formal, principalmente entre jovens homens.

  • Banco Central: em um estudo no blog da instituição, Leandro Siani Pires e Fábio José Ferreira da Silva sugerem que a expansão de benefícios pode ter um efeito agregado “não negligenciável” na participação.

Mas até esses estudos reconhecem que houve queda também entre não beneficiários, mostrando que fatores externos (como pandemia e condições do mercado) influenciam tanto quanto o programa.

O que fazer daqui para frente

Apesar de considerar pequeno o efeito sobre a oferta de trabalho, o Ipea recomenda alguns ajustes no Bolsa Família:

  1. Aperfeiçoar o desenho do programa: evitar que pessoas em ocupações precárias deixem de procurar alternativas melhores.

  2. Reforçar benefícios variáveis por criança: isso ajuda a alinhar o programa ao objetivo de combate à pobreza infantil.

  3. Ajustar o piso básico: equilibrar o valor de acordo com a composição das famílias.

Esses pontos mostram que não se trata de desestimular ou estimular a CLT, mas sim de corrigir distorções e manter o foco no combate à pobreza.

Quanto o programa movimenta hoje

O Bolsa Família continua gigante em termos de alcance e orçamento:

  • Agosto de 2025: 19,19 milhões de famílias atendidas.

  • Valor médio do benefício: R$671.

  • Orçamento previsto para 2025: R$158 bilhões.

  • Em 2024: foram R$168,6 bilhões.

Comparado ao período pré-2019, o programa triplicou de tamanho, consolidando-se como uma das maiores políticas de transferência de renda da América Latina.

Resumo do impacto real

  • O Bolsa Família de R$600 reduziu discretamente a participação na força de trabalho, mas não derrubou a CLT.

  • Os mais afetados foram mulheres, mães, trabalhadores domésticos sem carteira e moradores do Nordeste e zona rural.

  • O impacto foi muito menor do que se imagina e não justifica o discurso de que o programa “faz as pessoas largarem o emprego”.

  • No mercado formal, a influência é quase inexistente.

Saulo Moreira

Saulo Moreira

Saulo Moreira dos Santos é um profissional comprometido com a comunicação e a disseminação de informações relevantes. Formado em Ciências Contábeis pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Com mais de 15 anos de experiência como redator web, Saulo se especializou na produção de artigos e notícias sobre temas de grande interesse social, incluindo concursos públicos, benefícios sociais, direitos trabalhistas e futebol.