Se você é daqueles que faz Pix para tudo – paga a pizza, divide a conta do bar e até paga o dentista com um clique – prepare-se: o Banco Central vai apertar o cerco contra fraudes e mudar várias regras do sistema. Lançado em 2020, o Pix conquistou os brasileiros pela rapidez e simplicidade. Mas, junto com o sucesso, vieram também os golpes, as transferências suspeitas e as dores de cabeça para quem caiu em armadilhas virtuais.
Agora, com o chamado Mecanismo Especial de Devolução (MED) sendo atualizado, a promessa é clara: mais segurança, devolução de dinheiro em menos tempo e bloqueio para quem tenta enganar o sistema. Mas calma: nem tudo são flores, e há detalhes que podem complicar a vida de muita gente, inclusive de quem não tem nada a ver com golpes.
Vamos explicar tudo, com a mesma linguagem simples que você usa para pedir um Pix de R$ 20 para o amigo pagar o lanche.
1. Bloqueio em cadeia: a principal arma contra golpes
Imagine que um golpista recebe R$ 5.000 de uma vítima. Em segundos, ele manda R$ 2.000 para outra conta, que repassa R$ 1.000 para mais alguém, e assim por diante. Quando a vítima tenta bloquear, o dinheiro já virou uma corrida de revezamento e sumiu.
Com a nova regra, o bloqueio em cadeia vai mudar o jogo. O Banco Central vai poder congelar não só a conta original, mas todas as que receberam o dinheiro depois, seguindo o rastro completo da fraude.
Mais: as informações serão compartilhadas entre os bancos e haverá um prazo de até 11 dias para devolver o dinheiroà vítima. Ou seja, a chance de recuperar valores vai crescer muito.
Mas atenção: isso pode pegar usuários inocentes no meio do caminho – vamos falar disso já, já.
2. Autoatendimento para pedir devolução: fim da burocracia
Atualmente, para contestar uma transação, o cliente muitas vezes precisa ligar para o banco, falar com atendente, preencher formulário… um processo lento e irritante.
A partir de 1º de outubro de 2025, todos os aplicativos de banco terão um botão direto no Pix para você solicitar a devolução na hora, sem ter que falar com ninguém.
Vai funcionar assim: caiu num golpe? Clica na opção de contestação e o processo começa automaticamente. Se o dinheiro ainda estiver na conta do golpista (ou nas intermediárias), o sistema vai bloquear antes que ele suma.
Simples, rápido e sem enrolação.
3. Cronograma: quando tudo começa a valer
Aqui vai o calendário oficial para você se organizar:
1º de outubro de 2025: começa o autoatendimento para devolução.
23 de novembro de 2025: os bloqueios em cadeia entram em fase de testes, de forma opcional.
2 de fevereiro de 2026: bloqueios em cadeia passam a ser obrigatórios para todos os bancos.
Ou seja: as mudanças não vão acontecer de uma hora para outra, mas já têm data para valer para todo mundo.
4. Usuários inocentes podem ser bloqueados?
Infelizmente, sim. E é aqui que a história fica mais complicada.
Vamos supor que você vende um celular usado por R$ 1.500 e recebe o Pix de um comprador. Dias depois, o dinheiro dele é rastreado como parte de um golpe porque a conta anterior era de um criminoso. Resultado: sua conta pode ser bloqueada preventivamente até que tudo seja investigado.
Segundo o consultor Renato Cunha, especialista em segurança digital, isso pode acontecer quando há transações fora do padrão. Por exemplo:
Uma conta que nunca movimentou altos valores e, de repente, recebe R$ 10 mil.
Contas inativas que começam a ter transações intensas.
CNPJs irregulares ou contas ligadas a CPFs de pessoas falecidas.
Nesses casos, os bancos são obrigados a analisar e comunicar o Banco Central, podendo bloquear temporariamente os valores.
5. Possíveis prejuízos para usuários e empresas
O maior problema é o tempo de desbloqueio. Se a conta for bloqueada e você não tiver notas fiscais, comprovantes ou documentos que provem a legitimidade da transação, a liberação pode demorar.
Para pequenas empresas e autônomos, isso significa fluxo de caixa travado e possíveis atrasos em pagamentos.
Além disso, existe o risco de insegurança jurídica: pessoas comuns podem ser envolvidas em investigações sem terem feito nada de errado, simplesmente por estarem na cadeia de transações de um golpista.
6. Benefícios: mais segurança e menos fraudes
Por outro lado, os ganhos são claros:
Mais chances de recuperar o dinheiro roubado antes que ele suma.
Menos espaço para quadrilhas que usam contas laranjas para lavar dinheiro.
Maior formalização nas transações, já que comprovantes e notas fiscais serão cada vez mais importantes.
Com a rastreabilidade, a expectativa é que os golpistas tenham cada vez menos espaço para agir – e que o Pix continue sendo seguro e rápido para todos.
Como se proteger com as novas regras
Se você não quer ter dor de cabeça, siga estas dicas:
Formalize as transações: emita notas fiscais, recibos ou contratos sempre que possível.
Guarde provas: fotos da entrega, conversas com clientes e comprovantes ajudam em caso de investigação.
Evite receber Pix de desconhecidos: isso reduz o risco de envolvimento indireto em fraudes.
Responda rapidamente aos bancos: se receber notificações, não ignore.
Use o DICT: empresas podem acessar o Diretório de Identificadores de Contas Transacionais para verificar dados de contas antes de transações.
Segundo Renato Cunha, golpes acontecem mais por engenharia social – quando o criminoso convence a vítima a fazer algo, como transferir dinheiro – do que por falhas técnicas do Pix. Por isso, não compartilhe senhas, códigos ou telas do aplicativo. Os bancos não pedem isso e quem pede provavelmente é golpista.
