Imagine um cartão que vale mais que a carteira de motorista, mais que o RG, e que vai te acompanhar em cada consulta, exame e até na hora de buscar um remédio na farmácia popular. Esse é o Cartão Nacional de Saúde (CNS), que está passando por uma transformação histórica.
A mudança foi anunciada em 16 de setembro e promete simplificar a vida de milhões de brasileiros: o número antigo do cartão vai sumir e dará lugar ao CPF. Parece simples? É aí que a história fica interessante.
O governo quer limpar a base de dados do SUS, padronizar os cadastros e acabar com duplicidades. Só que para isso, mais de 111 milhões de registros serão inativados até 2026. Sim, você leu certo: milhões de cadastros vão sumir para dar espaço a uma base mais moderna, segura e integrada.
Por que o CPF agora é o rei dos cadastros de saúde
Se você já passou pela experiência de ter um cartão do SUS com número diferente do seu CPF, sabe a confusão que isso podia gerar. Havia duplicidade, dados desatualizados e um emaranhado de informações espalhadas.
Segundo o Ministério da Saúde, a ideia é ter um identificador único para cada cidadão: o CPF. Assim, quando você passar por uma consulta, vacinar seu filho ou buscar um medicamento, tudo estará centralizado e organizado.
Isso também vai permitir que o sistema acesse informações de outros órgãos, como IBGE e CadÚnico, sem risco de dados inconsistentes. Na prática, a saúde pública brasileira finalmente caminha para falar a mesma língua — e essa língua é o CPF.
Os números da mudança: milhões de cadastros saindo de cena
O processo de “higienização” do CadSUS, a base de usuários do SUS, começou em julho de 2025 e já está mexendo com números impressionantes:
340 milhões de registros existiam antes da limpeza;
Agora são 286,8 milhões ativos;
246 milhões já estão com CPF vinculado;
Outros 40,8 milhões ainda sem CPF podem ser inativados até abril de 2026.
Todo mês, cerca de 11 milhões de registros serão inativados. O objetivo é chegar em 2026 com uma base equivalente aos 228,9 milhões de CPFs ativos na Receita Federal.
E quem não tem CPF? Vai ficar sem atendimento?
Essa é uma das maiores preocupações da população, mas o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, já garantiu: ninguém será deixado para trás.
Para quem não tem CPF, o governo criou um cadastro temporário válido por um ano. Isso garante que, em casos de emergência, o atendimento não seja prejudicado.
Depois, será necessário regularizar a situação, incluindo o CPF e fazendo prova de vida para manter o registro ativo.
Além disso, indígenas, ribeirinhos e estrangeiros que não utilizam CPF continuarão com um número secundário no sistema, chamado agora de Cadastro Nacional de Saúde — não mais “Cartão”, para reforçar que é apenas um registro complementar.
A integração com outros sistemas: do SUS à Receita Federal
A grande inovação dessa mudança é a chamada interoperabilidade. Na prática, o CPF vai permitir que os sistemas do SUS conversem entre si e com outras bases de dados.
Entre os sistemas que vão passar a usar o CPF estão:
RNDS (Rede Nacional de Dados em Saúde),
SIM (Sistema de Informações sobre Mortalidade),
Prontuário Eletrônico da Atenção Primária.
Isso significa que um exame feito em uma cidade poderá ser acessado por médicos em qualquer outra região do país, sem depender de papelada ou cadastros diferentes.
Experiência internacional: o Brasil está atrasado?
O ministro Padilha revelou que o sistema de saúde do Reino Unido levou 10 anos para implementar um cartão de unificação como o que o Brasil está criando agora.
Ou seja, mesmo com a complexidade e o tamanho do SUS, o Brasil pode concluir essa mudança em pouco mais de dois anos, um prazo considerado rápido para a dimensão do sistema.
O cronograma até 2026: passo a passo da transformação
O processo começou em julho de 2025 e seguirá até dezembro de 2026. Eis o que já está definido:
Julho a setembro de 2025: início da higienização e suspensão dos primeiros 54 milhões de cadastros;
Outubro de 2025 a abril de 2026: inativação de mais 111 milhões de registros sem CPF;
Até dezembro de 2026: integração de todos os sistemas do SUS ao CPF e à Infraestrutura Nacional de Dados (IND).
Esse último passo é crucial, porque vai permitir a troca segura de informações entre ministérios, sem transferir bancos de dados inteiros.
Impactos para os pacientes: o que realmente muda na prática
Para quem já tem CPF vinculado, pouca coisa muda no dia a dia. Mas há melhorias importantes no horizonte:
Histórico unificado: vacinas, medicamentos e consultas estarão em um único cadastro;
Atendimento mais rápido: sem duplicidade de registros, os sistemas ficam mais ágeis;
Segurança dos dados: menos risco de informações erradas ou desencontradas;
Melhor gestão pública: com dados limpos, o governo pode planejar políticas de saúde com mais eficiência.
Benefícios para profissionais de saúde e gestores
Não é só para os pacientes que a mudança traz vantagens. Médicos, enfermeiros e gestores do SUS terão acesso a:
Prontuários completos, sem depender de informações do paciente;
Sistemas integrados, reduzindo erros e burocracia;
Dados confiáveis para pesquisa e análise epidemiológica.
Isso também pode facilitar ações como campanhas de vacinação, controle de epidemias e distribuição de medicamentos.
Desafios pela frente: por que não é tão simples assim
Apesar de todas as vantagens, a transição não é livre de obstáculos. Integrar milhões de registros, treinar equipes e adaptar sistemas exige:
Infraestrutura tecnológica moderna em todo o país;
Capacitação dos profissionais de saúde para usar os novos sistemas;
Segurança cibernética reforçada, já que a base de dados será integrada e muito valiosa.
Além disso, será preciso garantir que populações vulneráveis, como ribeirinhos e indígenas, não fiquem excluídas desse processo.
O futuro do SUS com CPF como identificador único
Quando todo o processo estiver concluído, o Brasil terá um Sistema Único de Saúde mais moderno, rápido e seguro.
O CPF como identificador único permitirá não só um atendimento mais eficiente, mas também políticas públicas mais inteligentes e baseadas em dados reais da população.
Na prática, significa que o SUS poderá saber exatamente:
Quantas pessoas precisam de determinado medicamento;
Onde há maior demanda por consultas ou exames;
Como distribuir melhor os recursos de saúde.
