CGU revela falhas chocantes no INSS: como entidades fizeram descontos milionários em aposentados sem autorização e o que vai mudar até dezembro

Auditoria da CGU expõe falhas graves no INSS

Uma auditoria realizada pela Controladoria Geral da União (CGU), divulgada em 2 de setembro, revelou um cenário preocupante: os mecanismos de controle adotados pelo Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) para evitar fraudes em descontos na folha de pagamento de aposentados e pensionistas eram, segundo o relatório, “frágeis” e “meramente formais”.

Em outras palavras, o INSS confiava demais nas próprias entidades e não fazia uma checagem mais rigorosa. Esse “voto de confiança” abriu brechas para que associações e entidades cadastrassem beneficiários sem autorização, muitas vezes com assinaturas falsas, e passassem a descontar mensalidades diretamente dos benefícios pagos pelo INSS.

O tamanho do problema impressiona: o prejuízo entre 2019 e 2024 pode chegar a R$ 6,3 bilhões. É dinheiro suficiente para pagar vários meses de aposentadoria para milhões de pessoas.

Acordos assinados com base apenas em declarações

A auditoria analisou 12 Acordos de Cooperação Técnica (ACT) firmados entre 2020 e 2024. Esses acordos eram o “passaporte” que permitia às entidades associativas fazer descontos diretamente nos benefícios dos segurados.

Mas aí vem o choque: em 92% dos casos, o INSS se contentou apenas com a previsão no estatuto da associação de que ela representava aposentados ou pensionistas. Ou seja, bastava a entidade dizer que tinha esse papel e pronto, o acordo era aceito. Não havia checagem profunda para confirmar se aquilo era mesmo verdade.

Mais estranho ainda: a CGU percebeu que muitos estatutos foram alterados pouco antes da assinatura dos acordos, levantando a suspeita de que as entidades “ajeitaram” os documentos só para conseguir a autorização.

INSS fazia checagem básica e ignorava alertas

A CGU descobriu que a fiscalização do INSS era, no mínimo, tímida. Quando o Instituto verificava as autorizações de desconto, limitava-se a ver se existia um papel com assinatura e se os dados estavam completos. Nada de investigação mais detalhada, nada de questionar a autenticidade.

Pior: nos processos de 2023 e 2024, a amostra de beneficiários para checagem era escolhida pela própria entidade interessada! Só em dezembro de 2024 o INSS mudou a regra, após recomendação da CGU, e passou a fazer a seleção por conta própria.

E tem mais: o Instituto ignorou alertas que estavam nos próprios sistemas do INSS e da Dataprev. Esses alertas apontavam problemas nos acordos e poderiam ter evitado que milhares de pessoas fossem prejudicadas. Mas ficaram lá, sem uso.

Enquanto isso, os pedidos para excluir descontos indevidos dispararam:

  • De 4.373 por mês em 2021, pulou para 114.685 em 2024.

  • Os pedidos para desbloquear descontos foram de 2.711 em 2022 para 72.890 em 2024.

  • Já as inclusões solicitadas pelas entidades passaram de 100 mil em outubro de 2021 para 1,8 milhão em março de 2024.

Esses números gigantescos poderiam ter acendido o alerta vermelho. Mas não acenderam.

Recomendações da CGU: prazo até dezembro

Diante de tudo isso, a CGU deu um prazo: até dezembro de 2025, o INSS deve seguir oito recomendações para acabar com a farra dos descontos indevidos. Entre elas:

  • Criar um banco de dados biométrico para aposentados que não têm biometria em outros órgãos.

  • Reavaliar os Acordos de Cooperação Técnica, para saber se eles são mesmo a melhor forma de permitir descontos.

  • Fazer análises mais robustas antes de assinar novos acordos.

  • Revisar todos os acordos suspensos e não retomar parcerias com entidades sem capacidade de atendimento.

  • Revalidar todas as autorizações de desconto, cancelando as que não forem confirmadas.

  • Acabar com a possibilidade de desconto apenas com biometria por similaridade ou documentos frágeis.

  • Melhorar a fiscalização e o monitoramento, aplicando penalidades quando necessário.

  • Calcular as despesas de gestão e auditoria para evitar prejuízos futuros.

Ou seja: o INSS vai ter que se mexer — e muito — para recuperar a credibilidade.

Medidas já adotadas pelo INSS

Apesar da bronca, o INSS diz que não está parado. Algumas ações já foram tomadas:

  1. Confirmação prévia pelo segurado
    Desde março de 2025, a inclusão de descontos na folha só é possível se o próprio beneficiário confirmar previamente a autorização. Nada de assinatura suspeita ou documento questionável.

  2. Suspensão dos acordos
    Todos os acordos com entidades foram suspensos. Eles só poderão voltar depois que as investigações terminarem e os valores indevidos forem devolvidos.

  3. Ferramenta de consulta no Meu INSS
    Agora, o segurado pode verificar se houve desconto irregular diretamente pelo aplicativo Meu INSS, pela Central 135 ou até em agências dos Correios. E pode pedir ressarcimento por lá mesmo.

  4. Investigações em andamento
    Tanto as entidades quanto os agentes públicos envolvidos nas fraudes estão sendo investigados. A promessa é de responsabilizar todos os culpados.

O tamanho do rombo e a dor de cabeça para aposentados

Imagine a cena: todo mês, o aposentado olha o extrato e vê um desconto que não autorizou. Liga para o INSS, para a associação, para todo mundo, e nada de resolver. Pois é exatamente isso que milhares de beneficiários viveram.

Com R$ 6,3 bilhões em jogo, a devolução desse dinheiro não será simples. Mas o INSS garante que o ressarcimento vai acontecer, e que o processo será facilitado com as novas ferramentas digitais.

Por que isso aconteceu?

Segundo especialistas, o problema tem nome e sobrenome: falta de controle e de tecnologia adequada. Enquanto outros órgãos já usam sistemas biométricos e inteligência artificial para detectar fraudes, o INSS confiava em declarações e papéis.

Além disso, havia pouca integração entre os sistemas. As informações sobre irregularidades existiam, mas não eram usadas para tomar decisões rápidas.

O que muda para os aposentados agora

Com as novas medidas, a promessa é que ninguém mais será descontado sem autorizar. A confirmação digital pelo Meu INSS e a suspensão dos acordos são passos importantes.

Outra novidade é que os aposentados poderão acompanhar tudo pelo aplicativo, sem precisar enfrentar filas em agências.

E mais: se houver desconto indevido, será possível pedir devolução online, sem burocracia.

Pressão para modernizar o INSS

A CGU deixou claro: o INSS precisa se modernizar. E rápido. A criação de um banco biométrico e a fiscalização eletrônica dos acordos são consideradas essenciais para evitar que fraudes desse tipo se repitam.

Enquanto isso, aposentados e pensionistas seguem no aguardo de respostas — e, claro, do dinheiro de volta.

Saulo Moreira

Saulo Moreira

Saulo Moreira dos Santos é um profissional graduado em Ciências Contábeis pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Possui mais de 15 anos de experiência como redator e criador de conteúdo para portais de notícias.Saulo se especializou na produção de artigos sobre temas de grande interesse social, no âmbito da economia, benefícios sociais e direitos trabalhistas.